sábado, 8 de setembro de 2012

Carta para uma pessoa falecida com quem gostavas de falar





Porto à vista, 8 de Setembro de 2012

"Adoro-te.
Seria natural começar-se uma carta para ti com um “Olá, estás boa?”. Porém, esta não será assim. Foste e és uma pessoa demasiado especial para enviar-te uma folha de papel com palavras vulgares, como um olá. Adoro-te adequa-se completamente ao que nos une.
Não sei se o carteiro entregará este pedaço palpável de papel na tua caixa de correio. Não sei se ela existe. Mas há uma que tenho certeza que existe. A caixa de correio do teu coração, onde param todos os pedidos que te fiz, todas as lembranças boas que vivemos e todo o carinho que demos uma à outra. São esses momentos e esse carinho que fazem com que me venham aos olhos lágrimas de saudade, de paz e de amor.
Tenho saudades. Como poderia não ter?! Uma mulher lutadora que desde cedo ficou sem pais, que criou duas crianças sem a ajuda de um companheiro que cedo morreu, que deu todo o amor e carinho às suas netas, que me deu todo o carinho que podia e não podia, nos seus piores e melhores momentos. Estive sempre a teu lado, excepto no dia da tua morte. Estavas doente. Eu sentia que a tua vida estava por um fio. Queria-te ver, abraçar e beijar. Proibiram-me. Acordei no outro dia com o som do choro que assombrava aquela casa que era tua. Chorei, ainda choro. Doí tanto! Como eu sinto a tua falta… Como desejava ver mais uma vez o teu sorriso, sentir o teu abraço e agarra a tua mão que tanta segurança me dava.  
Compreendo agora, passados seis anos, que não era altura de despedidas. Nunca nos despediremos uma da outra porque nunca me deixarás só. Estarás sempre nas minhas lembranças que contigo são vivas, emotivas e divertidas.
Espero que não te tenhas esquecido desta rapariga que, com apenas, doze anos sofreu uma das maiores perdas que alguma vez sofrerá. Perdi a mulher que sempre amarei, juntamente com uma outra.
Lembro-me da forma como pronunciavas o meu nome, resmungavas comigo,  me abraçavas e ocultavas todas as minhas asneiras para não sofrer castigos.
Deixo-te com as melhores partes de mim, com um sorriso saudoso, encantado e um olhar brilhante pelas lágrimas de felicidade e de saudade que me escorreram pelo rosto enquanto cada palavra saía do meu coração.
Jamais esqueças que Deus quis separar o que é inseparável.        
Termino (quase) como comecei,
Adoro-te Avó.
A tua e sempre tua, 
M."

Esta carta foi escrita há uns meses para um concurso mas continua a fazer todo o sentido.

4 comentários:

Rita disse...

Está fantástica!
Chorei a ler isto porque me identifico bastante...

Pipo Santos disse...

Como eu me identifico com isto, eu próprio tenho aqui no blog para a minha avó e para a minha madrinha! Sentes um alivio tão grande, é como respirasses ar fresco, é uma lufada nova que te levanta a cabeça e te empurra para a frente!
Adorei! *

Rita disse...

Não tem mal... Só que me identifiquei com as tuas palavras!

Parede Escrita disse...

É tão lindo este texto, faz me pensar em mim e no meu avô :)